quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Do livro dos abraços, Eduardo Galeano

Galeano, uruguaio querido, a quem li pouquíssimo mas que tem lugar cativo no meu coração, como vários outros escritores... creio que em termos de literatura sou uma promíscua... enfim, Galeano tem que dar as caras por aqui... ele traduz tão bem tantas coisas... um dia serei como ele, nem que seja nos meus sonhos...







Os ninguéns



As pulgas sonham com comprar um cão, e os ninguéns com deixar a pobreza, que em algum dia mágico a sorte chova de repente, que chova a boa sorte a cântaros; mas a boa sorte não chove ontem, nem hoje, nem amanhã, nem nunca, nem uma chuvinha cai do céu da boa sorte, por mais que os ninguéns a chamem e mesmo que a mão esquerda coce, ou se levantem com o pé direito, ou comecem o ano mudando de vassoura.

Os ninguéns: os filhos de ninguém, os donos de nada.

Os ninguéns: os nenhuns, correndo soltos, morrendo a vida, fodidos e mal pagos:

Que não são, emboram sejam.

Que não falam idiomas, falam dialetos.

Que não praticam religiões, praticam superstições.

Que não fazem arte, fazem artesanato.

Que não são seres humanos, são recursos humanos.

Que não tem cultura, e sim folclore.

Que não têm cara, têm braços.

Que não tem nome, têm número.

Que não aparecem na história universal, aparecem nas páginas policiais da imprensa local.

Os ninguéns, que custam menos do que a bala que os mata.

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